A Cela




O Ventre de Pedra



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O Governador das Masmorras


Parte 1

Um longo dia




A Cela


No fundo da escura masmorra havia um volume informe jogado ao chão. Estava parcialmente oculto por trapos que poderiam ter sido roupas um dia. Em meio às sombras, parecia-se com uma grande pedra suja; completamente inerte e desprovida de qualquer traço de consciência.


Os soldados que faziam a vigia chegaram a pensar que aquele volume havia se tornado de fato um objeto inanimado, pois estivera naquele estado desde que fora levado para lá há dois dias; completamente imóvel e em um aparente sono profundo, um sono de morte, não levantando-se para reclamar por comida ou água e nem mesmo para mudar o corpo de posição. Os soldados chegaram a espanca-lo, na tentativa de acorda-lo, mas não funcionou. Excetuando a fraca respiração não havia nenhuma outra atividade que insinuasse a existência de vida ali.

Mas ainda havia vida em algum lugar nas entranhas daquela “pedra” que parecia combinar tão bem com as demais pedras do lugar; e que eram o esqueleto e a carne da masmorra.

O gotejar incessante fora a primeira sensação a demover aquela “pedra” do profundo sono em que se encontrava, como se o “pinga pinga” incessante houvesse instigado na rocha uma centelha de consciência que as pancadas dos soldados não foram capazes de ascender. Uma centelha capaz de fazer a “pedra” querer se mover para longe da água fria, que insistia em cutuca-la avisando-a que a hora de despertar finalmente chegara.

Após o primeiro lampejo de consciência a vida pareceu espalhar-se por toda a figura jogada no chão. Se espalhou como se fosse a luz do alvorecer esparramando-se sobre a terra, queimando a inércia do gelo com suas chamas.

Então as demais sensações invadiram  aquela “pedra” como se ela fosse uma esponja faminta, pronta para tragar tudo a sua volta.

Pinga pinga” fazia a goteira, produzindo um eco ritmado que se propagava por toda a escuridão da masmorra.

Pinga pinga?” soou um pensamento no interior da “pedra”. Soou em “eisamaian”; o idioma do Império. Mas a pedra não lembrava-se de ter aprendido este idioma e nem qualquer outro idioma, falado por pessoas ou quaisquer seres que falem algum idioma; a “pedra” apenas “pensou naquele idioma”, mas não sabia como ou porque.

– Goteira? – Pronunciou a “pedra”, que na verdade não era uma pedra e sim uma pessoa, um homem adulto do qual se podia perceber apenas alguns contornos em meio aos trapos de pano que usava. Estava encolhido num canto mais escuro que os demais cantos da masmorra, completamente inerte. Mas a inércia acabara e ele havia falado, ou pelo menos havia movido os lábios testando o som que produzia aquela ideia; “goteira?”, como se soubesse instintivamente que aquele som, produzido por sua garganta ressecada, possuísse alguma relação com a água fria que insistia em cair sobre ele, incomodando-o a tal ponto que o fizera despertar, arrancando-o da completa escuridão.

Ele tentou lembrar-se onde aprendera a mover os lábios daquela forma para expressar a ideia de “goteira” e por um instante teve uma sensação de desespero alfinetando-o no estomago; não havia nada para se lembrar. Havia apenas um vazio escuro em sua mente onde deveriam haver lembranças. Levantou o tronco, sentando-se de supetão. Arregalou os olhos e teve um choque, o ambiente a sua volta pareceu dolorosamente claro e iluminado, mas na verdade era uma sala escura, fria e úmida, toda feita de pedra à exceção de um pequeno portãozinho feito de barras de ferro negro e do limo que se formara sobre as pedras mais úmidas do lugar. Ele achou o lugar um ambiente claro, pois a escuridão interna em que se encontrava até alguns instantes antes era simplesmente a mais inescrutável de todas as escuridões.

A pontada de desespero piorou, como se fosse uma lança fria perfurando seu estomago, pois tentou lembrar-se de qualquer coisa, por mínima que fosse e não conseguiu. Sabia apenas o que era uma “goteira” e como mover a boca para pronunciar o som que representava aquela ideia, mas não sabia dizer como aprendera aquelas coisas.

Fora uma sensação desagradável tentar recorrer as suas lembranças e não conseguir; foi como se sua mente houvesse tentado usar um membro que fora amputado e que não estava mais lá. Seu corpo sabia instintivamente que havia existido lembranças ali, em algum lugar, para serem usadas por sua mente, mas ao tentar usá-las nada encontrava. Aquilo o deixava com uma sensação similar à tontura; como se sua mente tivesse perdido a noção de direção e não soubesse mais distinguir entre o que era estar em “” e o que era estar “deitado”. O ambiente a sua volta parecia completamente sem nexo fazendo-o esforçar-se para se manter com a cabeça erguida e os olhos abertos, encarando todas aquelas novas sensações.

Olhou ao redor e experimentou tentar lembrar-se como aprendera o que era “pedra”, o que era “masmorra” e o que era “ferro” e para todas as tentativas obtivera o mesmo resultado; não conseguia lembrar-se de nada. Apenas sabia as coisas, mas não lembrava onde ou quando as havia aprendido. Tinha “informações” mas nenhuma “lembrança” a respeito delas.

Ele tocou o próprio rosto, estudando-se como se estivesse se conhecendo pela primeira vez. Ficou assustado ao constatar que não se lembrava quem era, de onde viera e nem quantos anos tinha. Sabia apenas que devia haver um “quem”, um “onde” e um “quando”, mas não conseguia encontrar nada em sua cabeça que lhe respondesse nenhuma das três questões. Nenhum rosto lhe veio à mente, embora ele soubesse o que era um “rosto”. Nenhum nome lhe ocorreu, embora ele soubesse o que era um “nome”. Parecia ter perdido toda a sua história e todas as histórias ligadas a ela.

Levantou-se com dificuldade, apoiando-se em uma parede úmida e cheia de mofo. Sentiu dores no corpo, como se houvesse sido espancado recentemente, afinal apenas em um espancamento ele poderia obter tantas dores pelo corpo como as que tinha. Sentiu as costelas e achou que talvez estivessem trincadas. Sentiu a coxa esquerda e percebeu que a cada movimento uma fisgada lancinante lhe fazia mancar dolorosamente.

Cambaleou com dificuldade em direção ao pequeno portão feito de barras de ferro e recostou-se nele, sentindo as grades gélidas em seu rosto e percebendo ao toque que elas estavam enferrujadas em alguns pontos. Conseguiu ouvir sons vindos do corredor do outro lado das grades.

Um monólogo sussurrado e rascante vinha de algum ponto longínquo do corredor como se fosse uma oração repetida febrilmente por algum doente à beira da morte. Pequenas unhas arranhavam a rocha quando alguma criatura se esgueirava de um ponto a outro do corredor com os olhos brilhando sinistramente em meio à escuridão. O som de passos firmes e ritmados de um par de botas vinha se aproximando pelo corredor. O homem sem memória captava estes sons com uma súbita voracidade, tentando inconscientemente preencher o vazio de suas lembranças com novas informações.

Ele ouviu alguém tossir muito perto dali, provavelmente na “sala” ao lado da sua. “Sala?” indagou-se, pensando em que tipo de lugar estava e percebeu de súbito que aquele lugar não se tratava de uma simples “sala”; era uma masmorra de pedra. E pelo corredor ele pode ver que haviam outros pequenos portões feitos de grades de ferro como o da masmorra em que se encontrava. – Estarei em uma prisão? – Indagou-se pensando em voz alta, estranhando o som da própria voz. Apesar de fraco e de estar com um pouco de rouquidão, sua voz soou forte e cavernosa.

No momento em que falou um soldado passou pelo corredor em frente à sua masmorra. Era o dono dos passos que estava ouvindo se aproximar. O soldado, ao velo acordado, mostrou-se subitamente interessado. – Então está vivo? Achei que houvesse morrido após a surra que te deram! – Exclamou ele, abrindo um sorriso largo e malicioso para o homem sem memória.

O soldado usava um elmo de couro em forma de cuia, do qual desciam abas de um tecido grosso que iam até a altura dos ombros. Sua vestimenta era um modelo leve; não possuía nenhuma proteção de metal, apenas protetores feitos de malhas de couro de Jagar costuradas nos locais da vestimenta que mereciam maior proteção para o corpo. Apesar de ser um uniforme de combate leve era muito útil até mesmo em conflitos contra inimigos fortemente armados, pois o couro de Jagar era tão resistente que podia aparar até golpes de espada e não dificultava tanto o movimento dos soldados como as armaduras de metal, tornando os soldados ainda mais eficientes em situações que exigiam alta mobilidade das tropas.

– Que lugar é esse? – Perguntou o homem sem memória para o soldado, esticando o braço de súbito para puxar o soldado contra as grades do pequeno portão de ferro. Ambos se assustaram com a situação; o soldado não esperava que o prisioneiro maltrapilho estivesse em condições de demonstrar tanta força e o prisioneiro reagiu como se surpreende-se com a própria ação; fora um reflexo impulsionado pelo seu estado de desespero e perplexidade e surpresa ao ver outra pessoa, pois sabia o que era uma “pessoa”, muito embora não se lembra-se de nenhuma.

Ansiou que aquela “pessoa”; vestindo aquela armadura de couro, fosse capaz de tirar as suas dúvidas, pois tinha várias. E com as respostas esperava conseguir preencher o buraco que sentia em sua mente, aquele vazio onde outrora habitavam lembranças.

O soldado se desprendeu do aperto assim que este se afrouxou um pouco. Recuou tirando rapidamente a espada da bainha e com um movimento ágil puxou o braço do prisioneiro pelas grades e o acertou com o cabo da espada antes que este se afastasse para o fundo da masmorra. Depois começou a bradar de modo furioso.

– Bastardo! Filho de uma rata imunda! Atreva-se a fazer isso novamente e eu o arrastarei pessoalmente às fogueiras! – Explodiu o soldado em fúria.

O prisioneiro se afastou cambaleando, segurando o braço onde o cabo da espada o golpeara com força. Mas ele não exibia  nenhuma expressão de dor no rosto; apenas concentrou-se na sensação dolorida, registrando-a. Assim como registrou o rosto do soldado, seu tom de voz e a forma como seu corpo se movia. Eram novas informações que ele registrou em sua mente com avidez. – Onde estou? – Perguntou novamente, em tom firme e suficientemente afastado das grades. Mesmo com a ameaça do soldado a única coisa que o afligia era a ânsia por respostas. Precisava delas. Desejava preencher aquele vazio fantasmagórico que sentia na mente, de modo que não se impediu de questionar o soldado. – Que lugar é este?

O soldado o olhou ainda com a expressão de fúria estampada no rosto. Era um homem jovem, apesar de ser difícil discernir a idade de alguém em um lugar tão escuro como aquele. – Onde acha que está? No harém de Zéfirus IV é que não é, seu bastardo! Isto é Dun seu merda! Ouça bem; isto é Dun! E é melhor começar a aprender como se portar aqui se não quiser que eu mande amputar seus braços e suas pernas! – Falou ele guardando a espada e virando-se para o corredor. – Espero poder leva-lo a sala do interrogatório em breve. – Disse brevemente em tom de ameaça.

– Mas quem sou eu? – Continuou o homem sem memória, não se preocupando muito com a menção ao interrogatório.

– Hahaha. – Riu o soldado maliciosamente. – Agora você não sabe quem é? Ora já entendi! Saiba que esta conversa de louco não funciona em Dun! Você é o interrogado e não nós! – Falou o soldado batendo levemente a mão fechada contra o peito. – Você responde o que lhe for perguntado e talvez só quebremos alguns dos seus ossos! Mas mencione a ladainha do “eu não me lembro quem sou eu” ou “bateram muito em minha cabeça” e mandaremos cortar sua língua e depois mandaremos queimá-lo vivo no centro do “pátio”. – Concluiu ele.

Ouviu-se o som de outro par de botas se aproximar e o homem sem memória espantou-se com a luz dourada e bruxuleante que se aproximava de onde estava o soldado que lhe falava. Viu que era outro soldado, segurando um objeto iluminado na mão, uma lamparina à óleo. A luz da lamparina parecia tão forte que o homem sem memória fechou os olhos por alguns instantes, esperando que sua visão se acostumasse com a claridade produzida pelo instrumento.

– Algum problema aqui Rugo? – Indagou o segundo soldado de forma descontraída, levantando a lamparina para clarear o rosto do primeiro.

– Apenas estava dando as boas vindas ao novo habitante. – Respondeu Rugo, o soldado que havia chegado primeiro à masmorra onde estava o homem sem memória. – É mais um que acha que se safará alegando não lembrar-se de quem é. – Concluiu Rugo, balançando a cabeça que ostentava um sorriso enviesado e malicioso.

– Ora é mesmo! Veremos então se nosso interrogatório não irá reavivar a sua memória.  – Falou o soldado com a lamparina para o homem sem memória; que apenas os observava de dentro da masmorra, aflito com sua situação.

– Este talvez seja nossa maior presa Erlon! – Falou Rugo para o outro soldado, dando-lhe um olhar significativo como se tentasse faze-lo lembrar-se de algo que era do conhecimento de ambos. Erlon então levantou as sobrancelhas grisalhas.

– Então “este” é o que você encontrou no navio em chamas durante sua ronda na enseada? Ora ora! – Exclamou Erlon aproximando-se das grades e sorrindo para o prisioneiro. Depois voltou-se para Rugo. – Não me admira que você tenha insistido em ficar na vigia desta “garganta” nos dois últimos dias! Está de olho no seu “baú de ouro”! – Erlon fez um estalo com a língua.

– Não fique comentando isto aqui! Alguém pode nos ouvir! – Retrucou Rugo fazendo um sinal com a cabeça para que ambos continuassem a marcha pelo corredor escuro.

Ambos os soldados saíram marchando, rindo e comentando de forma sussurrada sobre o prisioneiro que não havia dado sinais de vida até aquele momento. Rugo tinha certeza de que ele era um prisioneiro importante, um certo “alguém” ligado a um grupo revolucionário que afrontava abertamente o Império. E Rugo tinha seus próprios interesses em relação a este “alguém”, assim como muitos outros soldados também tinham seus próprios interesses nada profissionais naquele lugar; extorquir prisioneiros importantes era um hábito comum entre alguns grupos de soldados e apesar de não ser uma pratica incentivada pelos superiores no comando, costumava-se fazer “vistas grossas” sobre o assunto, de modo que raramente uma ação efetiva era adotada para impedir este tipo de comportamento entre os soldados. Aquele era um sistema carcerário corrompido em muitos aspectos.

O homem sem memória ficou ouvindo os passos dos dois soldados ficarem cada vez mais distantes e sentiu que a sua chance de descobrir algo sobre si mesmo ou sobre aquele lugar também havia se distanciado.

– Isto é Dun! – Repetiu ele após alguns instantes, imitando o soldado que se chamava Rugo. – Isto é Dun! – Pensou nas palavras e constatou que também não lembrava-se onde as havia aprendido, assim como não se lembrava de ter aprendido nenhuma outra palavra.

Mas notou que contorcia-se em seu amago uma crescente “aversão” aos soldados que haviam passado por ali. Principalmente em relação ao que se chamava Rugo. A “aversão” cresceu em seu interior de forma distorcida e o homem sem memória pegou-se imaginando o que ele poderia ter feito para arrancar deles as informações que lhe negaram. Negaram as respostas sobre “quem” ele era e sobre aquele lugar. Só haviam lhe dado uma palavra para remoer; Dun. E ele remoeria aquela palavra incansavelmente como um rato faminto rói um osso velho.

Ele procurou um canto na parede suficientemente afastado das grades do pequeno portão, mas próximo o bastante para que observasse um trecho do corredor. Sentou-se ali com dificuldade, pois ainda sentia dores nas costelas e na coxa. Ficou fitando o corredor com seus olhos cinzentos, a espera de alguma nova informação que pudesse absorver.

Enquanto nada mudava no ambiente ele ficou pronunciando a palavra “dun” para si mesmo. Repetia-a de várias maneiras, seguindo o ritmo do gotejar incessante que vinha do lugar de onde ele despertara há alguns momentos. – Dun! Dun! Dun! – Dizia ele em voz alta, apertando a mão direita com força.

Após o ocorrido com os soldados sua mão começara a formigar e a arder. Pensou que talvez fosse devido a pancada que o soldado que se chamava Rugo lhe dera, mas este o acertara perto do cotovelo e não nas costas da mão, onde sentia o incomodo. A sensação de ardência aumentou e se espalhou a partir das costas de sua mão, alastrando-se pelo corpo todo como se veias de fogo estivessem percorrendo-o por dentro.

Tentou ignorar a sensação desagradável, mas ela não deu sinais de ceder. A sensação de estar queimando por dentro aumentou até um nível insuportável. A masmorra, úmida e fria, de repente pareceu-lhe um forno. Sua garganta secou completamente e a sensação da pele encostando nas pedras era como a de brasa tocando blocos de gelo.

Ele se levantou de um salto, olhando para todos os lados, como que procurando por ajuda nas paredes de pedra. Mas nada encontrou além do inerte silencio das rochas.

Ele tentou beber a água que pingava do teto. Mas isto não foi o bastante para aplacar sua sede. Sentou-se novamente em um canto e ficou observando a masmorra, escutando o gotejar de água incessante, sentindo o ardor tortura-lo por dentro. – Estarei doente? Ou será por causa das dores no corpo? – Indagou-se mentalmente sem entender o que estava ocorrendo a ele.

O tempo se arrastou e todas as nuances possíveis para um ambiente tão estéril como aquele foram registradas pelo homem sem memória como se fossem eventos surpreendentes; uma ratazana apareceu por lá, demorando-se alguns instantes no pequeno portão de sua masmorra. Depois ela correu para a escuridão, sendo tragada pelas sombras. O gorgolejar de água ressoou em algum lugar da escura masmorra, revelando um buraco que estava tampado por um tipo de alçapão. A julgar pelo cheiro aquilo devia ser a latrina do lugar.

Os dois soldados passaram novamente pelo corredor em frente a sua masmorra, conversando em sussurros um com o outro. Desta vez eles não pararam para falar com ele, apenas seguiram em frente até que os sons de seus passos desapareceram na distância. – Lá se vão os malditos! – Pensou o homem sem memória imaginando suas mãos fecharem-se sobre a garganta de ambos os soldados. Em dado momento um barulho metálico e agourento cortou o silêncio, ecoando pelo corredor e pelas masmorras espalhadas por lá. Devia ser algum portão de acesso sendo aberto, pois logo após o barulho ele sentiu uma corrente de ar fresco chegar a sua cela, ou pelo menos o que restara da corrente de ar.

Mesmo com uma parte de sua mente observando o mundo exterior atentamente, havia uma outra parte na qual aquela palavra ecoava incessantemente como ecoava na masmorra o som da água batendo sobre o chão de pedra. “Dun Dun” – Soava o eco em sua mente. – “Pinga pinga” – Fazia a água sobre a rocha.

Ele fechou os olhos, fitando a escuridão. Sentia-se ficar mais e mais “alerta”. Mais e mais “acordado”. Aos poucos o mal estar cedeu e as dores em seu corpo sumiram com ele, a sensação de calor deu lugar a uma completa insensibilidade à temperatura ambiente. Mas os pensamentos sombrios aumentaram, sua mente divertia-se criando variadas formas de levar sofrimento para Rugo e Erlon, que recusaram-se a lhe dar as respostas que ansiava conseguir.

Não dormira durante um instante sequer e achou que era o som do gotejar que o mantinha acordado, afinal aquele fora o primeiro som que ouvira desde que acordara ali naquela masmorra e como não se lembrava de nada antes de ter acordado ali este era também o primeiro som que ouvira em toda a sua vida, o som que o despertara do seu sono de pedra.

Claro que haviam muitos outros sons que reconhecia, mas eram como informações depositadas em seu intimo. Informações das quais não possuía lembrança alguma, assim como todas as coisas da qual sabia ter conhecimento, eram apenas informações desprovidas de lembrança; informações que não pareciam ter sido adquiridas pela vivência.

Repentinamente o som de uma corneta soou em algum lugar no mundo lá fora arrancando o homem sem memória de sua vigilância contemplativa e de seus pensamentos sombrios.

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