LIVRO 1 - O VENTRE DE PEDRA



O Ventre de Pedra



 
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O Governador das Masmorras



Parte 1

Um longo dia

Prólogo

No começo haviam as pessoas de antigamente;
No começo as pessoas de antigamente conheceram os Grandes Guias;
E os Grandes Guias eram muitos;
Destes muitos, apenas alguns tornaram-se Reis...
Os primeiros Reis das pessoas de antigamente;
Mesmo que eles próprios não fossem pessoas;
Os primeiros Reis eram os conselheiros dos homens;
Eram as conselheiras das mulheres;
Mas eles próprios não possuíam gênero;
Os primeiros Reis eram os guardiões das crianças;
Eram as marcas que personificam o semblante dos anciões;
Mas eles próprios não possuíam idade;
Os primeiros Reis não pertenciam ao espaço entre o inicio e o fim;
E, portanto, eles próprios não possuíam existência;
Eram o potencial de vir a ser;
Eram, portanto, virtuais;
E quando eles vinham a ser...                                                   
Entre o inicio e o fim...
Exerciam, portanto, as virtudes que representavam;
O governo dos primeiros Reis era cientifico;
Seu governo pautava-se na compreensão;
Pautava-se na tentativa de compreender o quer que fosse;
E o tempo passou...
E os primeiros Reis se foram após cumprir seu papel...
Ensinaram às pessoas de antigamente a dobrar o ferro;
A esculpir a pedra;
A moldar a madeira;
Ensinaram às pessoas de antigamente a cultivar a vida;
Semear sementes;
Tratar plantas;
Colher os frutos;
E recomeçar;
Ensinaram às pessoas de antigamente o preço do sacrifício;
Cuidar de animais;
Matar animais;
Comer animais;
Deixar os animais viverem;
Ensinaram às pessoas de antigamente sobre vida e morte;
E sobre eternidade;
Os Reis de antigamente ensinaram esses e muitos outros saberes;
Ensinaram a fazer ciência;
E se foram em seguida;
Para os Palácios Virtuais;
Além do domínio das pessoas;
E o tempo passou...
E a ciência virou Filosofia;
O governo das pessoas, então, pautava-se em teorizar;
Seu governo não fazia mais experiências...
Não fazia mais testes...
Não fazia mais...
Tentavam adivinhar a verdade...
Mas não a alcançavam...
Pois a verdade precisava ser compreendida!
Não adivinhada!
Os Reis de antigamente visitavam as pessoas;
As vezes as aconselhavam;
As vezes as protegiam;
As vezes as ouviam;
Vinham para o espaço entre o inicio e o fim;
Para depois partirem novamente;
Para os Palácios Virtuais;
E o tempo passou...
E a Filosofia virou Dogma;
O Governo das pessoas, então, pautava-se em memorizar;
Pautava-se em repassar uma coleção de verdades imutáveis;
Seu governo havia morrido;
Passaram a ser governados por suas próprias leis;
Os Reis de antigamente visitavam as pessoas;
As vezes as protegiam;
As vezes as ouviam;
Vinham para o espaço entre o inicio e o fim;
Para depois partirem novamente;
Para os Palácios Virtuais;
E o tempo passou...
E o Dogma multiplicou-se;
O Governo das pessoas dividiu-se;
E cada novo Governo pautava-se em meias verdades...
Em verdades incompletas;
Nenhum Governo possuía Vida, mas todos possuíam Morte;
As pessoas eram governadas por suas próprias leis...
E estas os levavam a guerrear com outros Governos;
Os Reis de antigamente visitavam as pessoas;
As vezes as ouviam;
Vinham para o espaço entre o inicio e o fim;
Para depois partirem novamente;
Para os Palácios Virtuais;
E o tempo passou...
E os Dogmas viraram religiões, mitos, contos, alegorias;
Todas pautavam-se em leis corrompidas;
O Governo das pessoas há muito era uma ilusão;
Nenhuma religião, mito, conto, alegoria era suficiente para as pessoas governarem e viverem;
Todas as religiões, mitos, contos e alegorias eram mais que o suficiente para as pessoas serem Governadas;
Eram suficientes para as pessoas se matarem;
Os Reis de antigamente visitavam as pessoas;
Mas não se revelavam mais para estas;
Eram poucas as pessoas capazes de reconhecerem os seus antigos Reis e Guias;
Mesmo estas não os viam, pois eles mantinham-se escondidos, disfarçados, ocultos...
Apenas observando as pessoas serem Governadas por suas próprias mentiras;
Eles aguardavam que as pessoas tentassem alcançar os Palácios Virtuais...
Ou...
Aguardavam que as pessoas chegassem ao fim sem terem conhecido a eternidade;
Vinham para o espaço entre o inicio e o fim;
Para depois partirem novamente;
Para os Palácios Virtuais;
Sem terem sido notados em suas manifestações simbólicas e em suas roupagens materiais.
E assim, as pessoas de antigamente tornaram-se as pessoas atuais...
E assim, as pessoas de antigamente esqueceram seus primeiros Reis...
E assim, as pessoas atuais se encontram...
Em algum lugar entre o inicio e o fim...
Fora do alcance da eternidade...
Fora do alcance dos Palácios Virtuais...
Sendo Governadas por suas próprias mentiras...


Cap. 1 - Em Ancar


– As cinzas levantaram-se com o vento naquela manhã...

– Eu testemunhei o que aconteceu do alto dos céus...

– Não pude ver tudo... Não pude ouvir tudo... Ainda assim tentei ver e ouvir tudo o que fosse possível...

– Tentei até mais... No entanto o que aconteceu estava fora do meu alcance...

A voz dela era linda; a voz de uma jovem donzela inebriante e sedutora. No entanto ela falava como se estivesse em um transe. Como se não possuísse consciência do que estava dizendo. Ela prosseguiu...

– Os navios inimigos se aproximaram do porto durante a madrugada sem que ninguém os notasse; nem os sentinelas e nem eu percebemos um sinal sequer das embarcações nas águas do mar durante as horas de escuridão. – Ela sorriu enquanto falou, mas não era um sorriso agradável. Era um sorriso carregado de desdenho. Mas era difícil imaginar a quem aquele desdenho todo se destinava.

– Foi como se os navios inimigos estivessem navegando envoltos em um véu que os tornava invisíveis... Se fossem somente inimigos comuns; um bando qualquer de saqueadores, eles não contariam com um artificio tão engenhoso... Havia algo errado... Muito errado... Naquela manhã traiçoeira... E eu não fui capaz de perceber... Não fui capaz... – Ela terminou a frase quase sussurrando. Escorria suor do seu rosto. Ela ficou em silêncio durante alguns instantes, mas aqueles instantes pareciam uma eternidade para ela e também para aquele que a ouvia atentamente.

– O ataque veio... Rápido e violento... Os canhões do inimigo dispararam impiedosamente contra os fortes costeiros e contra um vilarejo a beira mar; alvos pegos totalmente desprevenidos. Um caos completo de explosões e chamas. Em seguida os navios aportaram e seus tripulantes rumaram como bárbaros selvagens carregando espadas e pistolas. – Ela retomou sua narrativa. Falava como se estivesse reportando um relatório para o seu ouvinte. A voz doce e sedutora não tinha emoção. De certa forma aquilo não deixava de ser um relatório; um relatório na forma de uma testemunha viva.

– Os soldados de Ancar responderam enviando quase todo o seu contingente para o porto, com isso conseguiram refrear a invasão não deixando os inimigos alcançarem as rotas que levavam até o centro da cidadela... – Ela interrompeu-se momentaneamente antes de prosseguir. – Tolos e presunçosos... Acharam que o inimigo era o que o inimigo mostrava ser... Foi o que os condenou e condenou a todos nós. – Ela balançava a cabeça em negativa enquanto falava. Mas os seus olhos pareciam não seguir o movimento da cabeça, continuavam fixos no ouvinte logo a frente. Na verdade os olhos dela nunca desviavam dele. Ela nem mesmo piscava. – No entanto... – Prosseguiu ela.

– Ancar  foi surpreendida novamente... O ataque veio de onde menos se esperava... Escravos e plebeus se rebelaram aproveitando que àquela altura o centro urbano contava com apenas um pequeno número de soldados para proteger o centro; a população estava a mercê da fúria dos rebeldes que empunhavam ferramentas como armas e também algumas pistolas e alguns barris de pólvora que só poderiam ter chegado às suas mãos através do contrabando... Tudo planejado... – Seu corpo estremeceu brevemente enquanto ela tentava articular a próxima palavra. – E Ancar mordeu a isca... E eu fui enganada... Enganada... Enganada... Juro que fui enganada... – Completou ela e mesmo que sua voz não possuísse nenhuma nota de emoção era possível deduzir que em seu íntimo haviam emoções que a atormentavam profundamente... A maior delas talvez fosse o medo.

– Aflita eu foquei toda a minha atenção na casa em que as duas estavam; a “Filha” e a “Filha-da-filha”... Elas estavam em perigo... – Disse ela e após isso parou de falar enquanto um sorriso se formava em sua face, mas antes mesmo do sorriso se completar um leve tremor devolveu a ela a expressão entorpecida, alheia e mecânica. E sua narrativa prosseguiu.

– A rebelião dos escravos começou em pontos espalhados, mas ela seguia um padrão que os conduziu para a praça principal. De lá o caminho dos rebeldes conduziria aonde eu temia... Ao encontro delas... Sim eu temia... Mas não por elas... Temia a punição por não tê-las protegido... Ah se eu temia. – Enquanto ela falava o ouvinte reconstruía em sua mente os eventos narrados, imaginando os detalhes, reconstruindo as entrelinhas, recriando o cenário e o ambiente. Era quase como se ele houvesse estado lá, na pele dela ou talvez fosse até mais real que isso, era como se ele se transportasse para aquele dia e lugar no passado através da narrativa dela.

– A “Filha” e a “Filha-da-filha” do “Sempre-sobre-a-torre” estavam no jardim quando soaram os sinos e as cornetas de alerta de sua casa. As duas; mulher e criança, fugiram para o interior da construção que era semelhante a um pequeno castelinho cuja maior torre erguia-se trinta passos em direção ao céu... – Sua voz quase sumiu ao terminar a frase. Ficou mais alguns instantes em silencio. O peito arfava como se estivesse fazendo um enorme esforço. Aos poucos a respiração normalizou-se e ela abriu os lábios novamente para falar.

– Instantes após elas terem entrado na casa, eu perdi o rastro das duas... Não as via ou ouvia... Algo estava errado, pois se eu era capaz de ver  e ouvir até mesmo os vermes rastejando pela terra, porque eu não era capaz de ouvi-las no interior da casa? Aquela casa que eu vinha vigiando há anos... – Ela levantou o braço direito de vagar como se estivesse tentando alcançar algo, mas a meio caminho um tremor percorreu seu corpo e o braço despencou frouxamente ao lado do corpo. O suor escorria pelo seu braço e pingava das pontas de seus dedos e de suas unhas compridas como pontas de adagas.

– Era como se as duas houvessem se afastado para um outro domínio dentro daquela casa... Que até então parecia-me; vista de fora, uma casa normal. Uma construção de pedra que as pessoas constroem para não precisarem dormir ao relento ou em cavernas e tocas como outras criaturas faziam... – Um sorriso torto perpassou seu rosto novamente. Um sorriso rápido, desagradável e desdenhoso, após o qual sua face tornou-se novamente inexpressiva. – Fui enganada duas vezes... Duas vezes... Se não mais... – Disse após um breve instante.

– O “Cavalo negro”; o inimigo do “Sempre-sobre-a-torre”, não estava com elas, apesar de morar na mesma casa... Ele havia saído cedo; como sempre fazia antes das primeiras luzes de Aruzan despontarem no leste, montado em um Belusco Negro. Foi para o forte no qual exercia o trabalho de oficial comandando um grupo de soldados que se ocupavam da patrulha dos portos e das praias da ilha de Ancar. – O vento soprava forte fazendo seus cabelos negros esvoaçarem. Seu ouvinte a olhava atentamente, nada mais existia para ele; apenas o som daquela voz que seria capaz de enfeitiçar a qualquer outro. Menos a ele.

– Provavelmente o “Cavalo negro” estava em meio à multidão de soldados que digladiavam com os invasores no porto... Provavelmente ele nem imaginava o que se passava na casa onde estavam as duas... Provavelmente... Provavelmente... Provavelmente... Provavelmente... – Ela ficou repetindo aquela última palavra por um bom tempo. Seu ouvinte não a interrompeu em nenhum momento. Por fim ela caiu no silêncio e desta vez os seus olhos se fecharam, como se ela houvesse caído em um sono languido após um grande esforço exaurir suas forças. Um novo momento de interrupção no relatório; mas um momento mais longo, mais consistente, como uma página em branco no meio da narrativa. Era como se ela precisa-se daquele tempo para poder prosseguir. Ou talvez fosse o seu ouvinte que precisa-se daquele tempo, daquela página em branco, na qual poderia ordenar os eventos narrados até então.

Em dado momento o ouvinte moveu-se. Foi como se uma estátua houvesse se movido; uma pedra que repentinamente percebesse que possuía vida. Ele aproximou-se dela... Tocou levemente o seu queixo erguendo sua face e disse... – Continue. –Ela abriu os olhos que tornaram a petrificar-se ao olharem nos olhos dele e continuou...

– Enquanto eu vasculhava cada detalhe da luta que começava ao redor da casa, eu notei que em meio aos revoltosos haviam seres que não eram pessoas... Apenas se pareciam com estas... Provavelmente eram eles os responsáveis por driblar minha vigília. Espíritos corrompidos que vestiam a pele e a carne de pessoas. Estavam marcados com os sinais “Dele”... Sinais que esconderam cautelosamente de meus olhos até aquele momento... Sinais que esconderam dos olhos normais dos seres deste mundo... Os sinais da “Grande-sombra-que-vomita-caos”. Mas naquele momento eu os notei, pois eles tiraram seus disfarces, tiraram seus mantos inescrutáveis... Notei os seus sinais... As marcas de Araór Vegus... Sim, eu notei... – Ela ainda falava como se estivesse em um transe, mas seu corpo estremecia ora ou outra. Era como se o seu corpo estivesse procurando uma forma de canalizar as emoções que ela revivia enquanto falava... Enquanto transformava em narrativa o que havia testemunhado.

– Eu sabia o que eles queriam... Só podia ser uma coisa... O raro sangue que a filha do “Sempre-sobre-a-torre” carregava em suas veias... Quando eu os vi me desesperei... Talvez já fosse muito tarde para fugir deles... Talvez fosse muito tarde para resgatar as duas; os tesouros do “Sempre-sobre-a-torre”... As duas que eram a família do “Cavalo negro”... Então aproveitei que os soldados que guardavam a casa da “Filha” e da “Filha-da-filha” estavam protegendo-a bem. Os revoltosos não eram soldados treinados e assim muitos deles caíram sobre as setas dos arcos e sob a lâmina dos experientes espadachins que o “Cavalo negro” pagava para protegerem sua casa e sua família... E “eles”... Os seguidores de Araór Vegus ainda não haviam se movido... Embora eu não soubesse o motivo de sua demora agradeci o tempo que me fora dado. – O ouvinte andou alguns passos para longe dela. Alguns passos para mais perto do fogo. Os olhos dela o acompanhavam aonde quer que ele fosse como se estivessem ligados a ele.

– Mergulhei dos céus para buscar as duas... O tempo urgia... Tinha que agir antes que “Eles” agissem... Entrei pela torre mais alta da construção... Poucos me viram entrar... Eu poderia ter desejado que aquelas criaturas não houvessem me notado, mas seria uma esperança fútil... Apenas me apressei. Busquei as duas por todos os cantos da construção. Fui atacada por alguns empregados da casa e os derrubei apenas com algumas notas da minha canção... Ainda assim, não encontrei nenhuma das duas... Era como se elas houvessem sido consumidas pela própria casa... Então forcei-os a falar... – Sua voz neste ponto reduziu-se a um sussurro. Seus lábios torceram-se em um sorriso de prazer. O ouvinte notou que era um sorriso de prazer mesmo que o tom de sua voz continuasse monocórdio e inexpressivo, pois ele conhecia a natureza dela. Conhecia-a melhor que ela mesma. – Eu os forcei. E eles resistiram. Resistiram até o final. Até que a morte os silenciou definitivamente. Ao menos para mim era um silencio definitivo. E isto só podia significar uma coisa... – Seu corpo estremecia levemente como se suas emoções estivessem lutando para se manifestar. – Eles realmente não sabiam onde elas... Onde elas... – Ela aumentava o tom de sua voz como se aquilo que ia em seu intimo fosse mais forte que as amarras que até então seguravam-na. – Eles não sabiam onde elas estavam... Os matei, mas eles não sabiam de nada... De nada... Nada... Hahahahaha... – Então ela se pôs a gargalhar. Ouvir aquela voz de donzela; voz delicada e encantadora, gargalhar daquela forma histérica e homicida era perturbador. Ou talvez o perturbador fosse saber que ela parecia estar se divertindo com o que ela havia admitido ter feito. E feito em vão. Mas não era assim tão simples. Havia algo muito mais perturbador no timbre daquela voz que conseguia ser inebriante mesmo quando era usada em uma só nota; a mais inexpressiva nota que possuía em seu repertório... Algo que ouvidos comuns não podiam distinguir, apenas temer.

– Então uma explosão ao longe chamou a atenção de todos, a minha inclusive... O som  estrondoso de trovão vinha do porto, mas era um trovão de pólvora e chamas... – Prosseguiu ela, após sua gargalhada ser sufocada por um espasmo que a fez arfar como se houvesse levado um soco invisível em algum lugar de suas costelas.

– Voltei para a torre mais alta da casa, vasculhando cada recanto e cada cômodo sem encontrar nenhum sinal das duas... Pareciam ter sumido diante de alguma feitiçaria. Me lancei no ar e subi aos céus rapidamente... Vi um grande navio arder em chamas enquanto era tragado pelas águas revoltas do mar... Seus estandartes pertenciam aos Insurgentes... Provavelmente ele estava carregado de pólvora quando explodiu. – Enquanto ela falava o seu ouvinte mexia no recipiente metálico que ardia nas chamas crepitantes.

– Notei de relance outra cena próxima ao navio em chamas... E nesta cena o “Cavalo negro” já não lutava, havia caído em meio a um combate em um pequeno navio de assalto que agora seguia à deriva. Todos no navio pareciam mortos e seus corpos eram carregados pelas ondas para longe do porto... Como se estivessem em um enorme caixão em chamas flutuando sobre as águas errantes... Me perguntei se aquele seria o fim do “Cavalo negro”... Me perguntei se o “Sempre-sobre-a-torre” iria querer que fosse o fim dele... Do seu inimigo que também era o guardião de seus dois tesouros... – Seus lábios tentaram contorcer-se novamente em um sorriso malicioso, um sorriso desagradável. Mas a atenção que seu ouvinte depositava nela era tão grande que parecia impedi-la de qualquer coisa que não fosse respirar e falar.

– Por um breve instante achei que os revoltosos se sentiriam inibidos ao receberem a noticia de que um dos maiores navios de sua esquadra havia afundado. Mas havia me enganado... Os revoltosos ficaram ainda mais ferozes após a explosão... Ainda mais perigosos... Gritavam “É o sinal! É o sinal!”... E as sombras em meio a eles se mostraram... E eu descobri a qual séquito eles pertenciam, pois o “Sempre-sobre-a-torre” havia me alertado sobre os poderes deles... A Estrela Negra. – Ela suspirou ao término da frase e depois falou, frisando aquelas palavras...

– Sim... Era a Estrela Negra... Um dos mais antigos séquitos de Araór que sobreviveram ao longo do tempo. Diante deles os soldados que guardavam a casa foram caindo, um a um. Soldados não eram páreo para os poderes dos “sinais de Araór”, que distorcem o mundo... Os sinais que eles controlavam. Temi o que poderia acontecer à “Filha” e à “Filha-da-filha”. Elas haviam sumido como em um encanto e eu esperava que o encanto também as ocultasse da Estrela Negra. Temi o que o “Sempre-sobre-a-torre” faria se eu deixa-se algo acontecer a elas... Mesmo que ele nunca tenha dito que haveria um castigo se eu fracasse... Mas eu nada poderia fazer contra a Estrela Negra... Eu sabia disso... E o “Sempre-sobre-a-torre” também sabia... – Ela parecia muito cansada enquanto falava; o suor continuava escorrendo por sua face corada como se ela estivesse em uma sauna.

– A casa foi invadida e logo ouvi uma daquelas coisas que vestiam a carne de gente falar “um túnel... ela fugiu por aqui...” e no mesmo instante temi que a Estrela Negra as encontrassem. Se eu entrasse novamente na casa para seguir pelo túnel eu seria vista... E eu não sobreviveria à eles; à Estrela Negra... Então me pus a procurar algum sinal das duas por todos os cantos de Ancar partindo da posição da casa... Almejava alcança-las antes deles... – Seus lábios estavam deixando a coloração avermelhada e estavam começando a ficar pálidos. As pontas de seus dedos começaram a ficar gelados.

– Fiquei me perguntando como não havia percebido um túnel naquela casa... Como não percebi e a Estrela Negra percebeu tão rapidamente... Me perguntei se as pessoas que matei na casa realmente não sabiam nada sobre a existência daquele túnel... Com que feitiço o ocultaram de meus sentidos...Como ele fora escondido tão bem de minhas habilidades... Como... Como... Como... Como... – Enquanto ela repetia aquela última palavra o seu corpo estremecia. Talvez fosse raiva. – Duvidei de mim mesma naqueles momentos terríveis. Naqueles momentos em que sentia o desfecho iminente se aproximar. – O ouvinte acompanhava as palavras dela. Acompanhava atentamente os lábios que dançavam febrilmente na tarefa de narrar sua história.

– Enquanto eu sobrevoava os quatro cantos da ilha eu vi novamente; muito mais longe que antes, o navio em chamas no qual estava o “Cavalo negro”... Eu não encontrava nenhum sinal das duas. Não sabia mais onde procurar. Não sabia mais o que fazer. Resolvi então me aproximar do “Cavalo negro” para conferir se ele realmente havia tombado em combate, pois caso estivesse vivo eu poderia descobrir com ele onde o túnel levaria as duas. Havia uma chance remota de alcança-las primeiro... Um chance remota... Mas ainda assim uma “chance”... Chegando ao navio eu pude perceber um fraco, porém constante, pulsar de vida em seu interior... O inimigo do “Sempre-sobre-a-torre” ainda vivia... O navio afastava-se ainda mais depressa do porto, levado pelas correntezas do mar. Os revoltosos no porto estavam sendo contidos pelos soldados de Ancar e não estavam mais preocupados em salvar um navio avariado como aquele; preocupavam-se mais com suas próprias vidas. Deste modo o “Cavalo negro” seguiria à deriva... Achei que se o deixasse ir talvez ele tivesse algum futuro... Talvez... Mas eu precisava saber onde estavam as duas... Então tentei acorda-lo. Mas nada fazia efeito sobre ele. Não estava morto mas dormia como uma pedra, ou até mais que uma pedra; dormia como uma sombra dentro de uma pedra. Um vulto que nem mesmo minha voz parecia alcançar... Minha última esperança havia se apagado... – Ela estremeceu antes de prosseguir, como se tentasse evitar prosseguir a narrativa. Mas continuou assim mesmo.

– Notei pela primeira vez que o “Cavalo Negro” não estava sozinho na pequena embarcação... Além dos vários mortos havia mais uma criatura viva que eu não havia notado antes... Uma criatura que vestia pele e carne de gente e mesmo assim não era gente... Fazia parte da Estrela Negra... Ele também estava desacordado, como o “Cavalo Negro”. Eu vi, chegando mais perto, que ambos possuíam o “sinal do cadeado” em seus corpos. Eu não sabia o que havia acontecido para o “Cavalo Negro” ter sido marcado com um sinal, que ainda estava muito fraco nele, mas ganhava força e forma rapidamente... Eu sentia que aquilo não era bom... Nada bom... Aquele era o cadeado... Um dos sinais de Araór Vegus... Um dos sinais malditos... Malditos... E por isso eu decidi... Naquele instante... Apesar do medo... Decidi... Levei a criatura desacordada que habitava a pele e a carne de uma pessoa até longe no mar... Até longe nos céus... Me surpreendi com o peso de seu corpo... Ou talvez fossem suas roupas... Ele parecia estar pesando o equivalente a dezenas de pessoas... No entanto, apesar daquele feitiço; se é que aquilo era um feitiço, eu consegui carregar aquele ser. E o joguei nas turbulentas águas do mar... Não sabia se aquilo mataria a criatura... Mas era só o que eu podia fazer... – Ela foi falando mais devagar. Mais baixo. Seu ouvinte seguia-a em sua narrativa.

– Na verdade havia mais uma coisa para fazer... – Falou ela com o corpo tremulo. Os seios à mostra subiam e desciam denunciando a respiração afetada; era como se ela estivesse se esforçando muito. – O “Cavalo Negro” também havia sido marcado com uma daquelas coisas... Eu devia tê-lo jogado no mar como fiz com a outra criatura. Pois se ele despertasse poderia não ser mais o “Cavalo Negro”... Poderia ser um deles... Um maldito... Poderia ser a Estrela Negra... Mas ele era o “Cavalo Negro”... O inimigo do “Sempre-sobre-a-torre”... O inimigo do meu carrasco. Então deixei-o em seu caixão de madeira e chamas... Deixei-o para que a sorte ou o azar o acolhessem na linha do horizonte. – Ela esperou alguns instantes. O corpo ainda tremia como se ela estivesse ansiosa. Como se esperasse algo. Mas não era possível dizer se ela desejava ou temia este algo. Quando percebeu que o que quer que fosse não viria o seu corpo parou de tremer lentamente. Sua respiração se normalizou. E a narrativa prosseguiu.

– Estava tudo acabado... As duas sumiram... O “Cavalo Negro” estava além do alcance de minha voz... E eu achei que só me restava partir... Deixar meu posto de observação para ir relatar tudo ao “Sempre-sobre-a-torre”. Para lhe cortar o coração com aquela noticia. A noticia de como todos haviam se perdido. – O ouvinte não a interrompeu, mas aproximou-se dela, encarando-a nos olhos e em resposta ao seu olhar ela prosseguiu rapidamente. – Mas estava enganada. Havia mais...

– Voltei o mais rápido que pude para o centro de Ancar, procurei nos arredores e não vi sinal da “Filha” ou da “Filha-da-filha”... Esperava que a Estrela Negra também não as tivesse encontrado... Então continuei procurando... Procurando... Procurando... Procurando... E foi então que vi... A “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre” dirigia-se para um pequeno navio escondido longe do porto de Ancar e do local do ataque dos rebeldes... – Ela interrompeu brevemente seu relato. Foi um silencio pontual. Mas um silencio que pareceu pesar sobre o ouvinte como uma eternidade em uma sala de torturas. Então ela prosseguiu...

– Mas não compreendi o que vi... Ela, a “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre” seguia seu caminho deixando atrás de si um rastro de mortos... Eram todas as pessoas que não eram pessoas... Eram os corpos da Estrela Negra, todos dilacerados... E ela; a “Filha” seguia resoluta para o navio... Sozinha! Completamente sozinha... Mas para dizer a verdade ela não parecia ela. Tentei me aproximar para ver melhor... Tentei concentrar-me totalmente na figura da “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre” indo embora... Mas... – Ela foi obrigada a se deter naquela parte do relato, como se a lembrança a machucasse de alguma forma. – Ela lançou-me um olhar aterrador; ela simplesmente sabia onde eu estava, sabia que eu a estava observando atentamente... E um relance daquele olhar foi o suficiente para eu compreender... Por detrás daqueles olhos não havia mais a “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre”... O que eu vi ali foi uma grande sombra... Foi “A Grande Sombra”... A Sombra mais profunda... E bastou aquele relance de olhar para me fazer despencar dos ares... E por pouco retomei o controle... Por pouco escapei da queda e desviei o olhar daquela criatura que caminhava sobre o mundo vestindo a pele e a carne da “Filha”... E vestindo aquela outra parte do corpo dela... Aquela parte que as pessoas não podem ver... Aquela parte que faz da “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre” uma criatura diferente das demais pessoas... – Ela parou novamente. Outro silencio pontual. Dirigido propositalmente para o seu ouvinte. No entanto, este silêncio não foi quebrado por ela, foi o seu ouvinte quem falou desta vez... Estarrecido...

– A Estrela Negra encontrou o que procurava... Ou melhor... Encontrou algo quando achava estar procurando outro algo. – Falou ele. – Pois eles procuravam um limite, procuravam algo que cabia em sua compreensão como se estivessem procurando apenas uma pequena parte de uma figura maior... Como se estivessem procurando um conjunto de números finitos quando na verdade o conjunto em si é bem maior... Talvez infinitamente maior... Tolos! – Concluiu ele falando mais para si mesmo do que para ela, que apenas permaneceu em silêncio, parecendo ainda estar em um transe profundo. – Prossiga... – Disse ele e ela obedeceu.

– Tentei então encontrar a criança... A “Filha-da-filha”... A procurei... Procurei... E procurei... Mas não encontrei... Não havia nenhum sinal dela... Em parte alguma... Nem havia sinal do seu corpo... Nem sinal do seu pulso de vida... Era como se ela houvesse sido esquecida pelo mundo... Completamente esquecida... – Ela parou novamente. Parou porque o ouvinte havia fechado os olhos; fechou-os momentaneamente como que querendo esconder o que ia em seu intimo. Quando ele reabriu os olhos, encarando-a novamente, ela prosseguiu, dando continuidade a sua narrativa que apesar de mecânica parecia esconder emoções que somente ela devia conhecer. Ela e ele; o seu ouvinte.

– Subi ao último dos céus do mundo... Acima de todas as nuvens... Não tinha coragem de olhar na direção do outro pequeno navio que desaparecia na névoa do oceano, carregando aquela “coisa”, carregando o sangue do “Sempre-sobre-a-torre”, deixando para trás os revoltosos que incendiaram Ancar e que agora estavam enfraquecidos com a partida dos seres malignos que mais cedo os apoiaram na luta... Os insurgentes escravos e plebeus não imaginavam que aquelas criaturas possuíam seus próprios interesses... Talvez aquela gente nem soubesse o que eles eram realmente... Foram usados por eles da mesma forma que o Imperador contra o qual se rebelaram os usava e agora pagavam por sua ignorância... Estavam sendo caçados e mortos da mesma forma que as pessoas costumam caçar e trucidar uma praga que ataca seus rebanhos e suas plantações... – Ela terminou esta frase com um suspiro. Parecia estar exausta.

– Cravei meus olhos na direção das Colinas Brancas... E resoluta a não parar até que aqui eu chegasse... Eu vim... Tão depressa quanto o vento que me carregou, para dar-lhe o testemunho... O testemunho do dia em que Araór Vegus encontrou uma forma de caminhar novamente sobre este mundo... Usando o corpo da “Filha” do “Sempre-sobre-a-torre”... A “Filha” do “Assombrado”... – Finalizou ela fazendo um esforço tremendo para esticar os braços em direção ao seu ouvinte. Este segurou suas mãos e disse...

– Você me deu o seu testemunho. E eu lhe darei longevidade. Vá e reveja sua família. Reveja sua terra. Aproveite cada instante, pois em breve você viajará novamente. – O ouvinte tinha uma voz velha, porém ela era tão velha quanto era poderosa e cheia de vida; uma voz controversa. Ao comando do ouvinte ela recolheu suas mãos de donzela junto aos seios macios e lânguidos. Suas mãos de donzela apesar de delicadas eram também armas letais; suas unhas pareciam as pontas de adagas de ferro negro. Ela ficou ali, de cabeça baixa, com os longos cabelos negros e lisos escondendo seu rosto de mulher na flor da idade.

O ouvinte virou-se e caminhou até o recipiente metálico que ainda estava sobre o fogo crepitante. Ele jogou alguma coisa em seu interior e repentinamente uma fumaça forte, com cheiro acolhedor e materno subiu sobre o topo do torreão.

Aquela que havia narrado o relato até agora levantou a cabeça de vagar. Estava voltando a si. Estava inalando aquela fumaça e recuperando as forças que lhe haviam sido tomadas. Então começou a falar. – O “Assombrado” zomba de mim. Ele amaldiçoa a nós. Amaldiçoa nosso povo à sua existência inacabável... Maldito seja... Onde está ele? Onde maldito “Assombrado” está? – Indagou ela. Sua voz estava tão horrível quanto estava bela há alguns instantes; o que outrora era encantadora tornou-se aterradora e hedionda. – Onde está? – Persistiu ela, furiosa.

O ouvinte lhe deu as costas rindo alto, um riso velho e sobrenatural que a amedrontou. Mas apenas por um breve instante. Ela disparou em direção a ele com as garras letais prontas para dilacerar o que quer que encontrasse em seu caminho. Ele por sua vez caminhava tranquilamente em direção à borda do torreão como se não possuísse medo de cair daquela altura toda.

Então ela saltou sobre ele e ele... Simplesmente desapareceu no ar enquanto ela despencou no vazio. Despencou vários passos em direção ao solo, mas depois contorceu seu corpo em pleno ar e abriu suas poderosas asas, disparando em seguida na direção da mata ao redor daquele lugar, gritando xingamentos e maldições naquela voz horrível, metaliza e rascante como a voz de um fantasma subterrâneo.

Sobre o torreão restaram apenas a fumaça, um recipiente metálico, cinzas, o vento que parecia soprar eternamente naquelas alturas, e aquele vazio absoluto de vida; um vazio paradoxal que só se faz notar quando não há uma única criatura capaz de notá-lo.

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